Gillo Pontecorvo

Gillo Pontecorvo é o maestro responsável pela película vencedora dos prêmios Leão de ouro (1966) e BAFTA de Cinema (1972). Seu filme, La battaglia di Algeri (A Batalha de Argel) lançado em 1966, faz jus aos prêmios e talvez seja uma das peças mais icônicas da cinematografia.

Mais que uma leitura histórica e política num formato “filme pseudo-documentário”, A Batalha de Argel nos traz em seu cerne, por meio da linguagem fílmica, a representação da contradição gerada pela colonização. Nessa análise, a nota tônica do texto será de convidar você a auscultar o trabalho sensível de Gillo Pontecorvo, alçado na instrumentalização da contradição, fruto dos movimentos de colonização do século XIX.

O filme possui a áurea do prestígio por um simples motivo: ele é (e infelizmente será) o retrato de nosso presente. Quem assistir a batalha como pura e simplesmente luta entre opressores e oprimidos, terá um aproveitamento mínimo da obra, e quem interpretar única e exclusivamente como o hasteio da bandeira revolucionária pelos argelianos, castrará o florescer de sua alteridade. A situação histórica e como ela é narrada pelo filme pode ser ligada aos acontecimentos recentes na França. Se fôssemos pela paixonite da revolução ao assistir o filme, tenderíamos a achar o atentado de Charles Hebdo como o triunfo dos “oprimidos”, e nisso esqueceríamos do primordial: que nem um e nem outro deveriam estar na situação de conflito, que não deveriam jamais serem categorizados na binaridade entre opressor e oprimido.

Uma cena é a chave mestra para entender o que digo. Mas antes, creio que seja importante amassar o pão.

O básico para entender o contexto histórico que o filme retrata: Argel está na Argélia, bem ao norte, beirando ao Mar Mediterrâneo e próxima ao Estreito de Gibraltar. Sua geografia favorece o acesso ao mercado mediterrâneo e por isso, há maior facilidade de importação & exportação comercial.

O continente africano tem um longo histórico de resistência contra as tentativas de colonização britânica, holandesa e francesa. Já há muito tempo vinha resistindo contra os movimentos de colonização. Os interesses pela aquisição de terras coloniais estavam ligadas diretamente à prosperidade econômica das potências colonizadoras, tanto é que essa briga colonial se estende até o século XVIII, e resulta muito no que os continentes ex-colonizados são hoje (vejamos o Brasil e sua herança da arquitetura inspirada no medievo português, quantas ruas tortas e bairros construídos sobre morros nos é comum? Quantas ruas em zigue-zague e chãos tórpidos almofadam nossos passos diários?)

A Argélia foi colonizada em 1830 pelos franceses e anexada a França em 1865. Em 1873 a Lei Warner garantia aos franceses a compra de terras argelinas, iniciando assim a produção agrícola para a comercialização externa, além de incentivar a povoação francesa no local. Esse movimento de imigração vinda da Europa para a Argélia causa a desapropriação territorial e marginalização dos argelinos, que perdem suas terras para as atividades agriculturais.
Charles de Gaulle, general francês que liderou suas tropas durante a Segunda Guerra, prometeu a liberdade e independência para os argelinos ao fim do conflito contra os nazistas. Finalmente a Argélia iria liberta-se do domínio Francês! Em 1945, ano do término da Segunda Guerra Mundial, a promessa de Gaulle não se cumpre. Os argelinos que saíram as ruas comemorando finalmente a independência, foram banhados por uma onda de repressão vinda das tropas francesas. Deu-se caldo para o conflito entre o governo e os movimentos pró-independência. A partir disso, candidatos, jornais, transmissões, manifestações ou reuniões públicas que ousassem tocar no assunto da independência, eram reprimidos pelo exército francês. Pouco a pouco movimentos de anti-colonização e de teor nacionalistas se opõem à presença francesa.
Enfim, os argelinos, descontentes com a imposição colonialista, formam a FLN – Frente de Libertação Nacional, e também a sua extensão armada, a ELN – Exército de Libertação Nacional. A partir de 1954 as tensões entre argelinos e franceses engrossam. Em 1956 ocorre o atentado ao Milk Bar  na região central do bairro francês, causando alarde e preocupação para o governo. Começa uma disputa entre o governo e a FLN. O exército francês tenta contornar a situação por meio das propagandas e medidas de segurança. Para a contenção do movimento revolucionário e novos atentados,  o governo francês apela para as forças paraquedistas comandadas pelo general Jacques Massu, iniciando assim, no ano de 1957, a Batalha de Argel.

Um último detalhe, os argelinos são da cultura muçulmânica.

O filme é muito bem colocado e alinhado com os fatos históricos, há uma engenhosidade em contar os acontecimentos de forma rítmica e tristemente bela. Existe forte convite ao entendimento desse período conturbado da história argelina (que se arrasta desde 1830), e claro, é notório a capacidade de transportar o espectador para o passado cruento de Argel. É uma obra de arte por simplesmente conseguir nos implantar as sensações de estar lá, e de praticar nosso esforço de entender um passado em particular.

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Por trás dessa narrativa adormece o tempero para a construção e elucidação desse mundo binário. Não há muita dificuldade em enxergar dois mundos no mesmo espaço. Os cenários são a inversão de cores do outro, quando rico e bem-talhado, trata-se do mundo francês, quando desorganizado e empilhado, o bairro dos muçulmanos.

A marca da colonização é exposta a todo momento no filme. A binaridade faz questão de estar presente, não esconde o desgosto de dividir duas etnias pela sua fala, vestimenta e aparência. Quando tentam interagir uns com os outros, ou termina em situação de combate ou de subjugo.

Mostrar a dicotomia do mundo colonizado é a grande contribuição do filme? Na verdade, é algo um passo atrás disso. Vamos a cena que esclarece a sensibilidade do filme.

Vestir-se como o inimigo, e nele perder sua essência e cultura. Isso é a estratégia usada pelos integrantes da FLN para implantar suas bombas-relógios nos espaços franceses. A camuflagem imita aquilo que te repudia.

O take nos faz acompanhar o andamento do atentado: começa na reunião de planejamento, continua na travessia contra a vigia do exército, e por fim, de como as guerrilheiras andam no mundo em que não pertencem  até chegarem ao local da implosão.

Finalmente a arte do cinema se revela. As bombas relógio são postas. Os tique-taques são oradores da tragédia e vagarosamente o tempo marcha para a explosão. Nos últimos fios de segundo, antes da morte exalar seu perfume carnal, começam os closes: trabalhadores, mães, crianças, bebês, casais jovens…seres humanos. Enfim, explode.

Lembremos que não é a primeira cena que retrata um atentado. Alguns minutos antes assistimos a um ataque similar ao bairro muçulmano.

 

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A trilha sonora que acompanha o carregar dos corpos inanimados é igual tanto no ataque no bairro muçulmanos, quanto na dos franceses. Por quê?

A sensibilidade do filme mora ai, esse é o “tempero” que buscamos. As duas violências pertencem à contradição da colonização. O filme não busca justificar a violência revolucionária nem expor quem é o certo ou errado. A violência, o preconceito e a marginalização já são produtos da desumanidade. Procurar quem é o mais correto nessa situação é ato falho. Tanto os franceses quanto os argelianos são obrigados a comungar o ódio entre si, porque são gerados dentro do processo de colonização que corrompe a figura humana.

A perda de vida humana nas duas situações e todo esse conflito pesam de forma igual. Por isso, a música fúnebre para as duas situações é a mesma. A trilha sonora e o foco da câmera,  nesse caso, ocupam o espaço de narrador.

Sem favoritismo partidário, todas as situações expostas no filme partem desse núcleo comum: a colonização gera a contradição, logo, a desumanidade. A colonização corrompe na medida que separa a humanidade em colonizador (franceses ou europeus) e colonizado (argelinos ou muçulmanos). O mundo cindido em dois não existe sem essa relação binária. O colonizador é retrato do colonizado, e ambos são pintados no quadro da colonização.
Nisso, podemos tecer todas as sensações que o filme retrata. Desde o menino ambulante sendo rechaçado pela torcida francesa até as torturas praticadas pelo exército. São colonizadores contra colonizados. É violência bestial somente.

Os bairros dos colonizados escantilham em ruas apertadas e bêbadas, seus trajes são panos vagabundos, sua profissão é sempre má vista (seu emprego é a sobra do que seria bom, por exemplo, um lorde nos jogos de azares), sua etnia é sub-representada na televisão, no teatro, nas bonecas barbies, sua música não exala eruditismo o suficiente…o colonizado pouco sabe de onde veio ou para onde vai (carece de temporalidade), produz em si mesmo o reflexo da miséria.  Essa linha de pensamento que atribui as desigualdades à questão colonial é chamada de Terceiro Mundismo. O filme se sustenta em algumas teorias de escritores terceiro-mundistas da época (Frantz Fanon, Albert Memmi e Sartre). É um outro convite que faço, caso queira entender a visão dessa violência e como os intelectuais explicavam esse fenômeno da colonização, basta que leia suas respectivas obras.

Enfim, além de representar o contexto político da batalha, nosso diretor carimbou a estética de seu filme e em inúmeras situações segundo as teorias dos terceiro-mundistas.

O que desejava elucidar era somente isso. O argumento principal do filme é facilmente confundido como  propaganda pró-revolução. Num mundo ideal, não teríamos nenhuma prática de violência ou o binarismo partidário. Eu guardo a lição sensível do filme: é desumano viver  num triste mundo que só aceita 0 e 1 gerados por um sistema indigno.

 

1 • Título Original: Quemada
• Direção: Gillo Pontecorvo
• Roteiro: Franco Solinas (história / roteiro), Giorgio Arlorio (história / roteiro), Gillo Pontecorvo (história)
• Gênero: Drama/Histórico
• Origem: França/Itália
• Duração: 112 minutos
• Tipo: Longa-metragem
• Diálogo: Italiano/Português
• Legenda: PT (Não incluso)
• Cor: Colorido

William Walker (Marlon Brando) é um representante inglês que fora mandado para uma pequena ilha no Caribe, em 1845. Sua função é incentivar uma rebelião a fim de beneficiar os negócios ingleses, já que a ilha tem dominação portuguesa. Após dez anos, ele retorna para prestar declarações sobre quem ele pôs no poder.

903MB / AVI / IMDb / TRAILER

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1• Título Original: La battaglia di Algeri
• Direção: Gillo Pontecorvo
• Roteiro: Franco Solinas, Gillo Pontecorvo
• Gênero: Drama/Guerra
• Origem: Argélia/Itália
• Duração: 117 minutos
• Tipo: Longa-metragem
• Diálogo: Italiano
• Legenda: PT (No torrent)
• Cor: P&B

A revolução da Argélia vista dos dois lados da moeda: a legião estrangeira francensa que saiu derrotada do Vietnã e o povo da Argélia, que busca sua independência. O filme mostra o lado mais sujo do conflito.

700MB / AVI / IMDb / TRAILER

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